sábado, 28 de agosto de 2010

Carta ao meu pai

Tema: Carta para alguém que amo
Por: Taffa
O nosso relacionamento já foi bem melhor, é verdade. Lembro-me de quando brincávamos e passeávamos a esmo, apenas para aproveitar os bons momentos daqueles dias, numa época em que nos divertíamos com coisas simples e nos entendíamos através de sorrisos sinceros.
Seus olhos – sempre tão azuis – me aconselhavam com uma serenidade incrível e seus cabelos – ainda cheios e escuros – contrastavam suavemente com o tom da pele clara que eu enxergava com meus olhos de criança arteira e inquieta: um pingo de gente que tanto deu trabalho durante a primeira fase da vida.

Eu me recordo que fomos comparsas. Um piscar de olhos ou movimento de sobrancelhas iniciava toda a brincadeira. Caronas durante as primeiras séries escolares fixavam o itinerário dos dias e insônias por causa de um filho que dormia na cama dos pais marcavam a rotina das noites.
Tombos, machucados e hospitais: era assim que meus dias discorriam. Afinal de contas, de onde mais surgiriam tantas marcas e cicatrizes que hoje tenho espalhadas por um corpo que – convenhamos – mais parece uma colcha de retalhos?

Assim fechou-se um passado. Não tão próximo e nem distante. Que marcou um pedaço das nossas vidas, que mais pareceram um daqueles contos fantasiosos tirados dos livros onde os animais conversavam com os homens e os garotos – caso quisessem – podiam até mesmo voar.

Então vieram as novas escolas, as grandes mudanças e, por fim, a faculdade. Perspectivas diferentes, num corpo que ansiava por experiências.
Foi quando começaram as brigas – cada vez mais ríspidas. Nossos egos bateram de frente e eu pude ver, pela primeira vez, a sua parcialidade: tão inflexível perante os meus pontos de vista.
Discutimos bastante e, aliás, ainda o fazemos. Nossas opiniões são tão opostas que algumas vezes já me peguei pensando se algum dia iremos concordar em algum assunto qualquer. A sua severidade me trouxe desconforto e quando decidi te contar meus segredos, preferi os omitir, por medo de não saber qual seria a sua reação.

Aprendi sobre mim da melhor maneira possível: através da precaução. Certifiquei minhas ações e só dei um passo inicial nesse mundo quando tive a certeza de que responderia pelos meus atos, podendo erguer o peito e enfrentar prontamente quaisquer pessoas que se opusessem a mim. Eu já não tenho mais medo e meu receio, antes tão desmedido, já deu lugar a uma porção abundante de confiança.

Hoje, enquanto repenso o que já te disse e o que deixei de falar nestes anos, não me sinto triste e tampouco amargurado. Sei que tenho meus arrependimentos, mas meus erros – humanos como os de qualquer outro – devem ter sido perdoados com o passar do tempo em que vivemos juntos. Eu já me culpei tanto por não ter seguido os caminhos que você havia pré-estabelecido pra mim que cheguei a imaginar que a minha razão única da vida era ter nascido para te confrontar, mas percebi que tudo isso era uma perspectiva errada minha: o motivo de tantas brigas e desentendimentos era o fato de eu ser exatamente igual a você.

Eu demorei vinte e dois anos pra te entender, pai. E nesse meio tempo eu sei que tivemos nossos altos e baixos. Portanto, eu quero levantar a bandeira branca e desejar paz para nós. Não com o intuito de me render ou dizer que perdi a guerra, porque essa nunca aconteceu. Quero apenas que me dê um abraço apertado, um caloroso sorriso e me diga como foi o seu dia; porque, meu velho, nós temos muito que conversar. E a primeira coisa que eu preciso que saiba é que eu não quero mais me perder de você.

[Carta originalmente postada nos meus Instantes.]

24 comentários:

  1. Boa tarde, guaranetes!
    Desculpem-me pela demora!

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  2. Esta carta foi escrita num fôlego só. Depois a imprimi e a entreguei para meu pai.

    Foi um momento único na minha vida.

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  3. Me identifiquuei contigo porque vivi exatamente isso com meu pai... Li duas vezes. Foi como se eu tivesse escrito. Grande abraço!

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  4. Oi Taffa! Que bom que você entregou pro seu pai. Imagino o que ele deva ter sentido ao lê-la.
    Bela carta. Bj grande.

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  5. Que cuti cuti, que desprendimento.
    Não saberia escrever uma carta dessas.
    Não teria essa coragem. Parabéns!

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  6. Estranho, não li essa carta no Instantes... sabia que o ideal era aqui.

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  7. Nada justifica distanciamento entre pais e filhos, atribuo isso ao fato de que pensamos meio assim: ah, a pessoa tá perto e tanto faz, uma hora as coisas se ajeitam.

    Penso sempre o contrário disso e luto pra ser diferente: justamente porque é de minha família, que eu preciso me esforçar mais.
    Os da rua que se danem... se é que alguém precise se danar.

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  8. Tá, fiz exatamente o que detesto, comentei de mim em post alheio.
    Mas sabe cumé? Num sou perfeita.

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  9. Voltando aos comentários do post... hehehe
    Taffa, colcha de retalhos, é???
    adoUUUro!!

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  10. Nossa Taffa que lindo.
    Já escrevi uma pro meu pai, mas não tive coragem de entregar.
    .
    .
    Colcha de retalhos? ... ai ai ai
    .
    vou te ligar agora .. ok?
    beijocas

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  11. odeio minha falta de tempo e de organização... não li isso no instantes.

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  12. mas também não achei o fim do mundo, porque daí dei pra ler aqui com a emoção de uma... primeira vez?

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  13. carta lindíssima.
    também merece ser entregue.

    não conheço circunstâncias nem nada e, talvez por ter esse ponto de vista eu tenha essa opinião.

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  14. esse moço da foto se parece com você.

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  15. gente que não ve os comentarios...
    [tipo.. a carta ja foi entregue ]

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  16. Eu li no Instantes.
    E me emocionei nas duas vezes.

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  17. Cê bem que poderia contar como foi a reação do seu pai.

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  18. Pensei em escrever pro meu também nessa semana. Mas fica pra uma próxima.

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  19. oooooo;;;

    emocionei!!!

    Que relação linda com o pai taffarel..

    Homem pai é tão sem noção, eu falo isso por conhecer a causa, pq os pais de alunos são tudo estranhos..
    e parece que seu pai tinha um que diferente..

    emocionei de verdade..

    eu tb tenho uma relação bem estreita com meu pai!!

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