quinta-feira, 27 de abril de 2017

Quero ver quem me conta essa...

Tema: do que me contaram
Por: Rosana Tibúrcio
No tempo em que eu era bem crédula: meados dos anos 70
Eu me recordo bem de quando me contaram que o mundo ia acabar no ano 2000 e que os casamentos durariam para sempre. Que existia alma penada; Papai Noel, não. Que o sal fazia mal; o doce alegrava. Que o trabalho enobrecia; o ócio arruinava. Que quem conta um conto aumenta um ponto e quem conta um conto também omite. Que homem que é homem não chora e que mulher deve ter compostura. Que em casa as obrigações são das mulheres e que os homens “ajudam”. Que meu voto era válido; que a constituição deveria ser respeitada. Foram tantas e tantas coisas que me contaram ao longo da minha vida; algumas procedentes outras nem tanto e todas elas não me serviram muito. Mas até agora não apareceu ninguém para me contar que, se eu continuar procurando, dá pra ser só feliz. E fazer!


Uma linda quinta-feira pra todos vocês, minhas gentes, pois nas quintas há sempre algo diferente no ar e hoje há divagações sem fim; o que não é nenhuma novidade. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Tem tanta coisa

Tema: Do que me contaram
Por: Nina Reis




Tem muitas coisas boas
e outras nem tanto
 tem alguns desgostos
e também muito encanto

Tem grandes histórias
lembranças, recordações
tem tristezas, tem mágoas
e também tem ilusões

Tem algumas mentiras
muitos muitos segredos
alguns prefiro esquecer
tem os que remetem medos

Ouvidos bem atentos
coração bem preparado
sempre que me procuram
confiam de olhos fechados

Do que me contaram
tranquei a sete chaves
sou grata a todos
obrigada pela confiança



*Quem disse que o fim precisa rimar?

* pra quem chegou agora, entenda, quando tem rima, o final é sempre avacalhado. É isso!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Quando falo coisas reais*

Tema: Do que me contaram
Por Rafael Freitas

Era um acampamento de oração para jovens e eu estava lá. Não consigo lembrar nomes e datas, mas a história daquele monge magrelo e engraçado, contada sob a tenda no sábado à tarde, é difícil de esquecer. E de guardar.

Era nas ruas que ele realizava sua "missão": atravessava a cidade para não ser reconhecido, trocava o hábito marrom e o cordão com os votos por jeans e camiseta e ia para as ruas, na noite, fazer companhia para marginalizados e marginalizadas, travestis e vítimas da AIDS. Uma conversa amiga, um conselho, uma orientação. Mas como os rostos iam ficando conhecidos, estabelecia-se uma relação, uma proximidade. Entre esses rostos havia uma travesti na fase terminal da doença.

Quando foi internada, esse monge lhe visitava no hospital, oferecendo ajuda, cuidado, ombros e ouvidos. Talvez para prová-lo, ela começou a pedir favores estranhos. Certo dia pediu uma revista pornográfica. Ele comprou e, chegando lá, ela pediu: _ Não enxergo, lê pra mim. Mas e o voto de castidade? - pensou o monge. Lembro da piada e do gesto feito enquanto narrava sua contação de história adulta.

Um outro pedido: um estojo de maquiagem. Ele também comprou e, chegando lá, ela pediu: _ Não consigo me maquiar sozinha, faz isso pra mim? E ele fez. Ela pediu o espelho, se olhou e disse: _ Nunca me senti tão bonita. E assim que se despediram, pois ela se foi dias depois.

Numa outra vez, o monge estava no cinema. Seu celular tocou e ele reconheceu o número de um dos rostos com que se relacionava. Atendeu à ligação e ao pedido de ajuda: _ Socorro, me leva pra casa da minha tia, vão me pegar! Deixou o filme pela metade.

Aquele rosto indicava um caminho afastado e, num certo  ponto da estrada, puxou um canivete e ordenou ao monge que parasse o carro e descesse. O rosto também desceu, roubou o monge e passou o canivete no seu pescoço de um lado ao outro, como comprovava a cicatriz. Caído e sangrando, ficou vendo aquele rosto se afastar. Quando faróis brilharam na estrada, o monge fez um esforço para se levantar, pulou na frente do carro e pediu ajuda. Enquanto ia para o hospital, rezava: _ Só quero ir para o céu se lá tiver cheiro de terra molhada. Talvez não tivesse, pois mesmo tendo perdido tanto sangue, ali estava: um milagre vestindo uma hábito e uma cicatriz.

As duas histórias me tocam. A primeira me fala de preconceito e amor. A segunda, de confiança e fé. Ambas me falam de esperança.


* Trecho da canção Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sua história daria um bom livro, cara

Tema: Do que me contaram
Por Laura Reis



Chegou o dia de ouvir alguma coisa que aquele cara tinha para me contar. E eu só pensava que, dali a alguns minutos, teria vontade de ter esses mesmos minutos de volta.
Ele começou já se afirmando diferente, pela idade e tipo de apresentação, arrancando risadas de todo mundo. Eu ainda pensando “legal cara, mas e daí?”.

Pois bem: foram 30 minutos que pareceram dois segundos durante os quais eu me mantive boquiaberta pelo menos metade deles. Entre risadas e olhos lacrimejados, eu finalmente me permiti entender um pouco de seu mundo e, por ter me permitido, tive a oportunidade de ouvir uma história incrível de alguém que, no fundo, só queria conhecer a própria história.

Quando menino, muito esperto e organizado, ele encontrou numa gaveta da casa um nome diferente daquele que costumava falar ao se referir à mãe. Alguns anos se passaram, nomes na lista telefônica percorridos; ele, já grande, decidiu prestar concurso para ter acesso à grandes bancos de dados. Passou em um, em dois, foi o melhor funcionário e ganhou confiança o suficiente para pedir ajuda a quem pudesse. Mais de 200 ligações depois, ele mesmo ouviu o primeiro “alô” da mãe biológica.
Conheceu, conviveu e aproveitou até o dia em que ela adoeceu e se foi. Ficaram os irmãos e a certeza de ter feito o que precisava para se sentir bem e, para agora, nos trazer para tão de perto essa história que era tão dele.

Em meio à comoção e multidão ao redor, obviamente agradeci e parabenizei (enquanto mentalmente pedia desculpas e fazia um carinho daqueles que qualquer um de nós precisa, sim).

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Do 1929

Tema: sinto falta
Por: Rosana Tibúrcio

Dia 7 de nov. de 2016 vi meu ex no lugarzim onde deixava antes...
Sinto falta de dirigir, ir onde e quando quisesse e voltar na hora que me convinha. Levar filha pequena na escola ouvindo o programa de dois malucos. Levar filha de novo, na outra escola, e voltar com a outra filha, parar na Santa Cruz pra um sorvete de brigadeiro. Ir atrás de chocolate pra filha carente; de uma bola a mais pras crianças brincarem de muitas bolas no quintal, mesmo que isso me custasse uma multa indecente de uma guardinha mais indecente ainda. Sinto falta de sair do banco, pega meu carro e passar na Vesúvio ou na Elis Marina e trazer todas as quitandas requisitadas naquele dia. Sinto falta de, do nada, pegar o carro e buscar 555 fitas cassetes (VHS, no caso) pra passar final de semana vendo filmes. Falta de esquecer o carro no trabalho porque vinha conversando com colega até chegar à rua de minha casa sem nem perceber. Sinto falta de dirigir sem destino, só pra pensar, resolver alguma pendenga subjetiva ou não, ao som das playlists de minhas fitas cassetes. Sinto falta de dirigir todos os carros que foram meus e de marido da época. Mas falta, falta mesmo, sinto de dirigir o carro que me sobrou na partilha, apenas porque eu era – e não sabia – sua legítima proprietária: o meu 1929.

Uma linda quinta-feira pra todos vocês, minhas gentes, pois nas quintas há sempre algo diferente no ar e hoje há falta boa, porque o ruim num faz falta, né? Hummmm que esperta eu sou com essa conclusão!!!  

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tanta coisa

Tema: Sinto falta
Por: Nina Reis


Da despensa, caixa grande de papelão cheia de bolacha Tostines, uma prateleira da estante com Mirabel e outra com Toddynho, supermercado do lado de casa e a fartura de Kinder Ovo, brincar de basquete usando a cesta de lixo como cesta profissional, agilidade em pular o muro de casa e da vizinha, turma de amigos do bairro Nova Floresta e as inúmeras brincadeiras que fazíamos por lá, pipoca com café da casa da tia e o delicioso frango caipira que só ela sabia fazer, balas chitas de brinde que o moço da cantina dava, gincanas do Marista, das festas com nomes bregas de músicas, das trocas de papéis de carta, do quintal com amarelinha e da vitrola com as histórinhs infantis.