Tema: Férias
Por Taffa
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| Mafalda de Férias; por Quino. |
Certa vez minha família teve um ataque repentino de amor
fraterno e todos nós resolvemos tirar férias de uma vez só. Na época eu ainda
morava em Uberaba e quando meu pai me convidou para ir à Caldas Novas com tudo
pago, aceitei sem titubear. Bem, na verdade descobri depois que o “tudo pago” nem era tão livre de
despesas assim. Meio que propaganda enganosa, pois eu precisaria pagar o combustível
da viagem e isso se mostrou mais caro do que o esperado, pois eu tinha de ir
até Patos de Minas pegar minhas duas irmãs, meu cunhado e tia e levá-los comigo
até o destino final. Depois de muita análise, aceitei o itinerário. No dia
marcado levantei cedo e peguei a estrada. Durante a ida para Patos não houve
nada tão complicado, exceto pelo fato de eu ter me lembrado apenas na metade do
caminho que havia esquecido o calção de banho. Coisa típica de ex-gordinho que
detesta clube e entra numa piscina só uma vez por ano.
Chegando ao primeiro destino, por volta das nove horas da
manhã, encontrei minhas irmãs ainda dormindo nos quartos, descobri que minha
tia havia ido ao sacolão de verduras e me contaram que meu cunhado havia sido
proibido de ir, pois tinha feito falta de educação com uma amiga da mãe no
dia anterior. Berrei carinhosamente minhas irmãs para se apressarem enquanto ia
à feira procurar minha tia e na volta passei na casa do cunhado para conversar
com a mãe dele e fazê-la deixar o garoto ir, pois minha irmã se recusaria a
viajar sem o love.
Horas depois pegamos a estrada. Durante o percurso minha tia
abriu o vidro de forma errada e isso fez com que ele ficasse travado,
obrigando-a a passar toda a viagem levando bordoadas de vento na cara, além de
fumaça de caminhão e, vez ou outra, algum inseto que se esmagava nas lentes dos
seus óculos. Ao chegarmos na cidade ela já estava toda descabelada, eu me
mostrava impaciente com o calor, uma das irmãs ameaçava o namorado caso ele
olhasse para a bunda das mulheres e a outra estava eufórica querendo sair para
a balada – isso ainda às três da tarde.
Encontramos o hotel após uma longa e tortuosa caminhada pelo
inferno. Imagino que não exista outra palavra para descrever Caldas Novas, quão
quente é. O pior de tudo é o fato de todas as pessoas serem turistas, o que faz
com que ninguém saiba absolutamente nada a respeito de onde está ou qual caminho
seguir para chegar aos lugares. Demos dezenas de voltas até encontrar o
local certo e ao entrar no apartamento me deparei com aquela que foi, de longe, a
pior surpresa da viagem: sem ar condicionado.
Depois das malas desfeitas e meus pais terem chegado, a
galera foi pra piscina se besuntar de bronzeador e pegar aquela cor do pecado. Eu,
que tenho herpes labial e sou o mais branquelo da família, me besuntei também,
mas de bloqueador solar com fator de proteção 50. Então imaginem um ser já branco de
natureza, quase transparente de tanto bloqueador e caminhando
desengonçadamente pela orla da piscina: lá estava eu.
Falando em piscina, uma das únicas coisas boas de Caldas Novas é, sem sombra de
dúvida, a piscina de água gelada. Digo isso porque é tudo muito calorento, chega a ser difícil
de pensar. Imagino que seja por isso que as pessoas vão para um lugar extremamente quente nadar em piscinas quentes. É a única explicação. Ah, sobre o sol de lá, bem, de duas, uma: ou deve ser mais
próximo à Terra ou talvez Deus utilize alguma lupa para intensificar os raios
sobre aquele pedaço do mundo, porque aquele calor não pode ser normal. O ar é
tão quente que você se sente numa sauna seca, mesmo debaixo de sombra. A
calçada permite que ovos sejam fritos sem a necessidade de fogão. Quando você
resolve fazer uma caminhada debaixo de sol, ao olhar alguns quarteirões à frente é possível visualizar miragens e, se você não for rápido, pode pegar uma insolação.
Isso sem falar nos preços europeus que os comerciantes de lá cobram pela água
mineral, chega a ser necessário encher as garrafinhas nas torneiras do banheiro, senão isso traria a falência de qualquer sujeito em menos de vinte e quatro horas.
Enfim, Caldas Novas, pra mim, é sinônimo de férias
frustradas. Lugar onde eu não consegui me sentir bem e não sei se algum dia voltarei.
Aliás, assim como disse o Ulisses outro dia desses: “férias é simplesmente não ir”, no meu caso, não ir para Caldas Novas (ou qualquer outro local onde o calor seja similar ao de um deserto), pois, caso eu vá para um lugar assim, vou precisar tirar, além das férias, outras férias das férias para que eu possa me recompor da decepção.